AGRONEGÓCIO
Retomada da guerra encarece fertilizantes e aumenta riscos para o agronegócio brasileiro
AGRONEGÓCIO
A retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã em julho, depois de um acordo temporário que havia permitido a reabertura parcial do Estreito de Ormuz, voltou a pressionar o mercado de fertilizantes. Embora os bombardeios norte-americanos tenham sido suspensos na sexta-feira (24.07), a pausa não representa um cessar-fogo e o transporte marítimo pela região permanece instável.
A situação atinge diretamente o planejamento da safra brasileira de verão, que começa a ser plantada a partir de setembro. Com o encarecimento dos insumos, a dificuldade de contratar fretes e o atraso nas compras, parte dos agricultores pode reduzir a adubação, principalmente em culturas com margens menores ou menor acesso ao crédito, como arroz, trigo, café e laranja.
O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes e compra do exterior entre 85% e 88% do que utiliza. Em 2025, as importações atingiram o recorde de 45,5 milhões de toneladas, enquanto as entregas ao mercado interno somaram 49,1 milhões de toneladas.
A dependência torna o país especialmente vulnerável ao que ocorre no Estreito de Ormuz. A passagem marítima concentra cerca de um terço do comércio internacional de fertilizantes e mais de 40% das exportações globais de ureia, principal fonte de nitrogênio utilizada nas lavouras. A região também responde por aproximadamente metade da oferta mundial de enxofre e por parcela relevante da produção de amônia.
A ureia é fabricada principalmente a partir do gás natural. Já o enxofre é indispensável à fabricação de fertilizantes fosfatados. Assim, a interrupção da navegação não afeta apenas o produto pronto: ela restringe o acesso às matérias-primas necessárias para que indústrias instaladas em outros países, inclusive no Brasil, mantenham suas fábricas em operação.
Depois de recuar durante a trégua, a ureia voltou a subir no mercado brasileiro e chegou a aproximadamente R$ 2,23 mil por tonelada, considerando o preço internacional com frete até o Brasil e o câmbio de R$ 5,10. O valor ainda não inclui despesas portuárias, transporte interno, tributos e margens comerciais.
A pressão é mais forte sobre os fosfatados. O fosfato monoamônico, conhecido como MAP, está próximo de R$ 4,54 mil por tonelada nos portos brasileiros. O enxofre alcançou o equivalente a R$ 6,38 mil por tonelada no mercado internacional, reflexo da escassez provocada pelas limitações de produção e transporte no Oriente Médio.
O Brasil importou cerca de 1,4 milhão de toneladas de MAP no primeiro semestre, redução de 24% em relação ao mesmo período de 2025. As compras de superfosfato simples também recuaram 14%, para aproximadamente 1,4 milhão de toneladas. No caso do enxofre, a queda chegou a 41%, com cerca de 671 mil toneladas desembarcadas.
A menor disponibilidade da matéria-prima já provoca efeitos na indústria nacional. Unidades produtoras de fertilizantes fosfatados reduziram ou interromperam atividades em Goiás, Minas Gerais, Bahia, Tocantins e Mato Grosso. Novos cortes estão previstos caso o fornecimento de enxofre e ácido sulfúrico não seja normalizado.
Isan Rezende
A redução da produção doméstica amplia a dependência das importações justamente quando os fornecedores internacionais enfrentam restrições. A China passou a exigir inspeções obrigatórias para exportar sulfato de amônio, medida que pode atrasar os embarques. Rússia e outros países produtores também priorizam o abastecimento interno ou enfrentam dificuldades logísticas relacionadas a conflitos e sanções.
O efeito não será igual para todos os agricultores. Grandes propriedades que anteciparam as compras, possuem melhor acesso ao crédito ou mantêm níveis adequados de nutrientes no solo conseguem atravessar um período curto de escassez com menor impacto. O risco é maior entre pequenos e médios produtores que compram mais perto do plantio e dependem do estoque disponível nas revendas locais.
A possibilidade de reduzir a aplicação também depende da análise do solo. Em áreas que receberam adubação adequada nos últimos anos, pode existir algum efeito residual de fósforo. Isso não significa, porém, que o nutriente possa ser retirado indiscriminadamente. Nitrogênio e potássio também desempenham funções fundamentais e a redução sem orientação técnica pode comprometer o desenvolvimento das plantas, a produtividade e a qualidade da colheita.
O Rabobank estima que as entregas de fertilizantes no Brasil podem cair para 47,2 milhões de toneladas em 2026, quase 2 milhões de toneladas abaixo do recorde do ano passado. Além da guerra, pesam nessa projeção o endividamento rural, a restrição de crédito e a relação menos favorável entre o preço dos insumos e o valor recebido pelas commodities.
O resultado da menor adubação dependerá também do clima. Chuvas regulares podem ajudar as plantas a aproveitar melhor os nutrientes disponíveis no solo. Em contrapartida, a previsão de um El Niño forte aumenta o risco de estiagens, excesso de chuva e irregularidade das precipitações nas regiões produtoras.
Uma eventual perda de produtividade não deve aparecer imediatamente nos preços ao consumidor. O impacto será sentido primeiro nas lavouras plantadas no segundo semestre e poderá chegar ao varejo em 2027, principalmente se a redução dos fertilizantes coincidir com problemas climáticos. O risco maior não é a falta completa de adubo, mas a soma de custos elevados, crédito restrito, compras atrasadas e clima desfavorável.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, essa nova escalada no Oriente Médio amplia uma preocupação que o produtor já carregava antes mesmo do plantio. “Os fertilizantes representam uma parcela importante do custo da lavoura e qualquer aumento compromete o orçamento, sobretudo entre pequenos e médios produtores, que enfrentam mais dificuldade para obter crédito e antecipar as compras”, afirma Isan.
“Quando o adubo encarece ou não chega no momento adequado, o agricultor é obrigado a rever o pacote tecnológico. Reduzir a aplicação pode aliviar o caixa no curto prazo, mas aumenta o risco de perda de produtividade e de renda. O produtor acaba exposto dos dois lados: paga mais para plantar e pode colher menos”, acrescenta.
“O Brasil precisa tratar a dependência externa de fertilizantes como uma questão estratégica. Não existe solução imediata para substituir as importações, mas é necessário ampliar a produção nacional, diversificar fornecedores e melhorar a infraestrutura de entrada e distribuição desses insumos. O custo de uma crise internacional não pode continuar chegando integralmente à porteira”, conclui Rezende.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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